Cabeças, sentenças, pendências

por Misha Gibson, que não quer falar sobre desistências

171 Todo Dia

Terça, 09 De Outubro De 2018 ás 06:00

Cabeças, sentenças, pendências

Cabeças, sentenças, pendências

Cada cabeça, uma sentença.

Não ache que estou falando de política por causa do primeiro turno das eleições. Para não dizer que fugi deste assunto, só tenho uma frase: 'Winter is coming'.
O que me alenta é que a indignação apareceu nas eleições. Haverá mudança, lenta e gradativa.
Que assim seja.

Mas, não. Não quero falar de política. E também não quero falar do surto que tive duas semanas atrás, querendo parar de escrever. Ainda quero, ainda vou, se você está se perguntando. Mas, agora, agora eu preciso falar.

Minha educação sempre foi tradicional. Naquela época a gente não tinha opção, ser diferente não era uma razão. Eu não podia ter dificuldades em matemática. Eu não podia ser jovem demais para saber o que era objeto direto, predicado, sujeito oculto: tinha que ir para a aula de inglês onde os outros alunos tinham 4, 5 anos a mais que eu. Quando meu pequeno aprendeu tabuada, eu não sabia estudar com ele. O método que eu sabia era só sair do quarto quando soubesse de cor. 

Hoje somos muito mais permissivos neste sentido. Tudo bem não saber classificar semanticamente - aliás, o que significa semântica? Tudo bem não saber tabuada, se e somente se você souber somar e souber conceito. Tudo bem não saber conjugar o verbo to be... Tudo bem? Não, não. Para mim, não. Neste mundo globalizado saber inglês é obrigação, não é optativo. Foi-se a época em que saber falar inglês era uma vantagem.

Ao perceber tardiamente a qualidade do ensino do idioma, que eu tanto amo e que acho tão necessário, pela voz do pequeno, sinto vontade de chorar. Nada, nada, nada pode justificar o descaso do ensino neste país. E eu não estou falando de ensino público. Já seria grave o suficiente termos tão pouca atenção para a matemática e o português. Mais um corte significativo eu não aguento.

E, essa longa introdução teve que vir para que você pudesse entender o contexto do que eu queria falar de verdade. Estava comentando com a mãe de uma coleguinha do pequeno as minhas preocupações com as tarefas e o pouco conhecimento que notei, queria outras opiniões a respeito. E então, conversamos sobre outros assuntos. Em como existe uma diferença gritante dos meninos e meninas da mesma idade. Em como existe uma diferença ainda mais gritante em crianças com irmãos mais velhos e crianças que não tem uma referência. Em como existe uma diferença grotesca em crianças em que os pais estão mais presentes e nas crianças em que os pais são mais ausentes.

E essa mãezinha me deu uma lição valiosa. Não é porque existe uma caça às bruxas-celulares na casa dela, onde as crianças entregam os aparelhos no domingo à noite, que o mesmo deveria ser reproduzido em outros lugares. Na casa dela funciona e bem, porque são três irmãos, que têm uma rotina que inclui outras crianças e outras pessoas. Elas não ficam sozinhas, não é difícil socializar. Penso em como seria difícil ter uma vida social hoje em dia, sem um celular. Muitos amigos meus moram longe, tenho família longe. E se eu fosse adolescente, hoje, morando em casa, longe de meus amigos? Acho que seria como viver em uma ilha deserta.

Não damos mais a liberdade que tivemos quando éramos adolescentes. Conheço muitas crianças que não sabem nomes de bairros, ruas e quiçá direções. O centro é um lugar muito pouco visitado por elas, que estranham o movimento das pessoas no shopping a céu aberto. Eu prefiro, sim, mimar meu pequeno e deixá-lo na porta da escola, na porta da casa dos amigos, ou até fazê-lo pagar o mico de entrar com ele no shopping. Prefiro deixá-lo na porta da loja que fica a algumas quadras de casa, do que deixá-lo caminhar até lá. Prefiro que ele não saiba andar de bicicleta, do que deixá-lo solto à mercê de roubos, tombos e atropelamentos. É um zelo excessivo? Deixá-lo com celular todos os dias é um descaso? Considerar que ele não vá a festinhas só de adolescentes sozinho é tolher demais sua liberdade?

Muito mais do que a minha cabeça, a minha sentença depende da cabeça dele. Muito mais do que condenar/absolver a atitude de outros pais, é preciso entender seus momentos, suas escolhas e suas premissas. Antes de me rotular como uma mãe permissiva demais, ou querer endurecer demais, eu devo pesar a situação do pequeno. E conceder e ceder o quanto os limites forem possíveis. Isso tudo parece óbvio, mas o óbvio é invisível aos olhos. 


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